terça-feira, 16 de Julho de 2013

Os Genes e Nós

Se fosse possível, como nas histórias de ficção científica, «teleportar» um ser humano para outro planeta, a forma mais simples e eficiente seria transmitir os códigos genéticos - as compactas sequências de instruções para (re)criar rins, pulmões, coração, fígado, pâncreas, músculos, ossos, etc. - e usá-los para reconstruir um homem ou uma mulher. Mas este plano falharia irremediavelmente no que diz respeito ao complexo órgão, sempre em evolução, que é o cérebro, pois. Ao contrário dos restantes órgãos, o cérebro está desenhado de forma a modificar-se, ou, melhor dizendo, adaptar-se através da experiência, moldando-se continuamente ao mundo exterior.

Os Genes e Nós - Raquel Pimentel
Os genes, unidades fundamentais da hereditariedade, poderiam transmitir apenas a informação suficiente para especificar as características mais gerais do cérebro, mas a sofisticada construção que faz de nós o que somos vem precisamente da experiência da vida. Os neurónios formam continuamente novas ligações, chamadas 'sinapses', com outros neurónios, amplificando os circuitos necessários para nos orientarmos no labirinto da vida. O cérebro humano é uma maravilha natural que nos confunde o espírito. É constituído por cem mil milhões de células nervosas, protegidas (e alimentadas) por perto de três milhões de milhões de células de apoio. E saindo de cada neurónio há um delicado 'cabo de comunicação', chamado axónio, que se ramifica e torna a ramificar, como a ramagem de uma árvore, permitindo que a célula de origem envie as suas mensagens, através de ligações sinápticas, para milhares de outras do seu tipo. Segundo o neurobiólogo do Massachusetts Institute of Technology - MIT, H. Robert Horvitz, identificar os sinais químicos que guiam os axiónios tem sido uma espécie de procura do Graal. No total, existem mais ligações sinápticas dentro de um único crânio do que estrelas no universo. A verdadeira essência do cérebro é esta maleabilidade, e é esse facto que deixa céticos muitos biólogos quando alguns sociólogos e psicólogos afirmam - como o fizeram Richard J. Herrnstein (1930-1994) e Charles Murray no seu livro, The Bell Curve (A Curva do Sino) - ter encontrado provas de que a qualidade a que chamamos 'inteligência' é essencialmente inata.

Raquel Pimentel - Website: The Bell Curve
The Bell Curve (A Curva do Sino, 1994)
O referido livro teve grande repercussão e desencadeou de imediato acesa polémica nos Estados Unidos, refletida, por exemplo, em três longos artigos no The New York Times, em que são apontadas as inconsistências teóricas e científicas dos dois sociólogos. Em resumo, Herrnstein e Murray afirmam que, geneticamente, a raça branca é mais inteligente que a raça negra, por exemplo, baseando-se em análises estatísticas de testes psicológicos e de quocientes de inteligência (QI). The Bell Curve veio alimentar as fogueiras do racismo e desencadear fortes reações, mas o facto é que, do ponto de vista científico, pouco ou nada vale, porque os seus autores ignoraram tudo o que faz do cérebro um extraordinário mecanismo e, sobretudo, a superior capacidade de adaptação. Além do mais, e como bem se sabe, os testes de QI são perfeitamente inadequados, cientificamente incorretos e nada mais revelam que os preconceitos e «certezas» de quem os elaborou. Não tenhamos dúvidas que se fosse possível a uma tribo selvagem fazer passar «brancos civilizados» por um QI baseado na organização social e conhecimentos da tribo, o branco certamente seria classificado como um imaculado idiota.

Tanto num caso como noutro, o Homem considerado são, porque é pessoa, não se entregaria a outro homem que pudesse considerá-lo como coisa sua (inferior). Seria regressar a uma conceção pagã da autoridade, em virtude da qual o antigo 'senhor' possuía seus escravos pelo mesmo título que suas tropas ou terras. Este 'refinamento' do sistema humano continua pela vida fora, e é por isso que as pessoas conseguem dominar novas disciplinas ou produzir ideias revolucionárias até à velhice.

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