O PODER DAS LÁGRIMAS

O Poder das Lágrimas by Raquel Pimentel
O Poder das Lágrimas, publicação de 2019
As lágrimas podem ser consideradas agradáveis, perigosas, misteriosas, enganadoras, loucas ou sagradas. Lágrimas de felicidade e de alegria, lágrimas de orgulho dos pais, lágrimas de luto ou frustração. Tradicionalmente, considera-se que as lágrimas podem ser de dor ou de alegria. No entanto, O Poder das Lágrimas pretendeu ir mais longe. Neste estudo de 2018, parcialmente publicado em janeiro de 2019 via site, procurou-se pontuar o comportamento lacrimal de lés a lés, a sua relação com o pensamento científico e social, bem como a sua narrativa aos olhos dos conceitos insensíveis do mundo moderno.


Em cada encontro que temos, emitimos sinais emocionais, e esses sinais afetam as pessoas que nos rodeiam. Por esta razão, e já que está provado que a empatia corresponde a um estado evolutivo muito alto, o comportamento lacrimal também aparece associado à comunicação. No fundo, como vimos nas publicações de 2012 Ser ou Parecer, Eis a Questão! e A Linguagem do Corpo, para além dos inúmeros estudos levados a cabo por especialistas como Julian Gabarde, membro da Sociedade Francesa de Morfopsicologia, todos temos documentados na cara o que realmente somos. Neste caso, a comunicação cinésica é estabelecida pelo corpo, expressões faciais e oculares. A negação destes factos é por muitos explorada em tom de defesa. Se as caraterísticas de alguns elementos do rosto, como a testa, os lábios, as maçãs ou os olhos, e as suas combinações permitem deduzir o perfil psicológico de qualquer desconhecido, podem as lágrimas ou o choro afinar o traço?

Investigações assinadas por conceituados oftalmologistas como Juan Murube del Castillo, entre outros, despertaram interesse internacional. O mais interessante dessas investigações é a forma como explanam o aparecimento dos diferentes tipos de lágrimas, tanto na evolução filogénica (evolutiva) como ontogénica (embrionária). Alguns relatórios deixam claro que no futuro as lágrimas de solidariedade e dádiva de ajuda serão muito mais comuns do que agora. Afirma Murube que as pessoas do século XX serão consideradas 'gente selvagem' e duríssima pelos nossos bisnetos e gerações posteriores. Perguntar-se-ão como pudemos tolerar tanta gente a morrer de fome enquanto nós temos todo o conforto.

É muito raro ver as pessoas famosas chorar em público, a não ser que... Com efeito, em comunicação, não verbal inclusive, as lágrimas e o choro podem desempenhar um papel muito importante. No universo mediático, o seu poder, muitas vezes desvalorizado, é uma palavra-chave escrupulosamente aplicada pelos especialistas mais experientes. Repetir - intencionalmente - as ligações nervosas pertinentes para desencadear o choro, não é para todos. Por outro lado, é preciso dizer que em certos casos esse poder é explorado até à exaustão. Mas vamos por partes, e por ordem:

Os olhos, as janelas do cérebro


Noventa e cinco por cento da informação (sensorial) que chega ao nosso cérebro passa através de dois globos brancos feitos de uma substância gelatinosa, com 2,5 centímetros de diâmetro e oito gramas de peso. Estamos a falar, como é evidente, dos olhos, as janelas do cérebro. Saiba que os olhos dizem-nos mais do mundo que nos rodeia que qualquer dos outros sentidos. Informam-nos sobre o tamanho, a forma, a posição e a cor dos objetos, desde minúsculos pontos a poucos centímetros do nosso nariz até às estrelas situadas a biliões de quilómetros de nós, no espaço. Isso é possível porque cada globo ocular contém um território (a retina) sensível às ondas de luz, que converte eletroquimicamente em sinais que o cérebro interpreta. Estas porções nervosas estão rodeadas por dois órgão mais ou menos esféricos, os olhos, que podem focar a luz, regular a quantidade da luz que penetra no olho, e moverem-se de modo a seguir uma fonte luminosa. O nervo ótico é formado por mais de 800 mil fibras nervosas.

Os olhos são de facto órgãos complexos e delicados. Possuem os seus próprios músculos externos e internos que fazem mover o globo ocular e alterar a forma do cristalino, e são servidos por diversos nervos cranianos - o nervo ótico para a visão, e os nervos oculomotor, troclear e abducente para o movimento dos olhos. Utilizam também diversos tipos especializados de tecido, especialmente na córnea, cristalino e retina.

A visão


Sem visão, não há comunicação não verbal (visual). Além disso, necessitamos de uma boa visão para a maior parte da nossa vida. É o sentido primário para a perceção dos factos, e é importante para quase toda a coordenação física. Para a maior parte das pessoas, mesmo um ligeiro problema com a visão pode provocar grande irritação e/ou aborrecimento - embora seja também verdade que as pessoas se adaptam com notável rapidez ao pequenos defeitos da visão. Também é preciso não esquecer dos efeitos naturais provocados pelo envelhecimento. Surgem defeitos durante a vida, e, por volta dos 40 ou 50 anos, muitas pessoas necessitam de usar lentes corretoras para certos problemas menores ou maiores relacionados com os olhos. Para lá dos 65 anos, as deficiências complicam-se com o desenvolvimento da opacidade do cristalino (cataratas).

As pessoas veem a vida a cores. Graças à visão binocular e à sua perceção das cores, o ser humano possui uma visão com uma amplitude de 160 graus. Estas duas qualidades são excecionais no mundo dos mamíferos. Só os pássaros veem melhor do que nós. Os nossos olhos em repouso estão programados para ver objetos situados a uma distância máxima de 60 metros.

Simplificando esta temática, aos olhos do mundo moderno o sistema visual humano consta de duas câmaras (os olhos), um cabo de ligação (o nervo ótico) e um centro processador (o córtice visual). Contudo, hoje, numa sociedade alojada no Pew Research Center, pautada pelos FOMO (fear of missing out) e JOMO (joy of missing out), e conduzida por compensações e aditivos virtuais, colocam-se algumas questões: como procuramos ver, e, o que procuramos ver?

A cegueira, a odisseia do apoio


Os últimos segredos do mecanismo da visão estão a ser desvendados pelos neurologistas. Contudo, os epidemiologistas advertem que os problemas oculares estão a aumentar. Assim sendo, este dado contrasta com os avanços espetaculares que se verificam no diagnóstico e no tratamento das doenças oculares. A forma mais habitual de corrigir os problemas refrativos (miopia, hipermetropia e astigmatismo) inclui os óculos e as lentes de contacto. Quando os problemas são refratários, hoje em dia a deficiência é frequentemente corrigida pela cirurgia ou através de diversas técnicas cirúrgicas seguras e precisas, nas quais o laser desempenha um papel fundamental. Infelizmente, a cegueira existe e por isso foi introduzida nesta publicação relativa à expressão ocular. A maioria de nós não tem a noção da real dimensão deste problema. A falta de civismo perante os casos de visão subnormal ou de perda de visão total prova isso mesmo.

Embora a tecnologia ainda não tenha conseguido substituir o olho humano, ajuda os invisuais a ter acesso a um mundo que, até agora, lhes estava vedado. Aliás, Kent Cullers, um conhecido astrofísico que também é cego, afirmou num certo dia: «Relaciono-me com o mundo através das máquinas, tal como muita gente, hoje em dia. E o maravilhoso da técnica é que posso fazer as coisas de modo exatamente igual às pessoas que podem ver». Com efeito, sem pretender suscitar falsas esperanças, a visão artificial está ao virar da esquina, e os seus auspiciosos avanços poderão acabar por devolver a vista a milhões de invisuais. Fica assim tangível que o pior cego é realmente aquele que não quer ver.

A íris alega informações


Se pensa que 'quem vê olhos não vê coração', a iridologia pretende o contrário. Embora esta prática não seja suportada por pesquisas científicas, O Poder das Lágrimas não exclui os fundamentos holísticos da iridologia ou iridodiagnose, a título de lembrete. As terapias alternativas podem ainda tornar-se suspeitas aos olhos dos médicos convencionais, mas cada vez atraem mais a atenção do público.

Como o nome indica, a iridologia interpreta a cor e a condição dos segmentos da íris, em termos de estado de saúde das diversas partes do corpo. Por exemplo, de uma forma muito resumida, estudando o setor do lado direito do olho na posição de quatro horas, um iridologista alega poder diagnosticar a doença nas costas ou na coluna de uma pessoa.

O choro, um poderoso pulmão para o futuro


No último instante de dor e esforço, a mãe respira, esgotada, e espera com ansiedade durante alguns segundos. Espera por um grito, pelo pranto do seu filho. Quando finalmente o ouve, sabe que ele está vivo. A primeira afirmação pública de vida é este choro com que os recém-nascidos chegam ao mundo.

O pranto desencadeia nos recém-nascidos uma série de reações fisiológicas, como a respiração, indispensável à vida; mas não é só isso, é também um pedido de ajuda perante o desconhecido e o medo. Talvez este pranto seja, diga-se, o mais lancinante que se pode ouvir, e o primeiro de muitos que o ser humano verterá neste permanente vale de lágrimas. Pois saiba que, em termos de comunicação, uma investigação levada a cabo pela Universidade de Trieste (Itália), juntamente com o Hospital Infantil Burlo Garofolo da mesma localidade, afirma que o choro infantil é uma espécie de pré-linguagem com diferentes matizes em idiomas distintos, já que o bebé imita (à sua maneira) a língua da mãe que ouviu na sua fase fetal.

A maioria dos animais superiores lacrimeja, mas nenhum chora. George Lewis, um criador de elefantes, menciona na sua autobiografia que viu chorar uma vez a elefante Sadie quando a castigaram. Jeffrey M. Masson e Susan MacCarthy também descrevem choros de proboscídeos no seu livro Quando os Elefantes Choram, mas ninguém o provou. O que não exclui a hipótese de que os animais tenham emoções. É certo que não ficou provado que algum outro animal comunique com os seus congéneres desta forma, mas é indubitável que há épocas da vida em que se chora mais do que outras.

Em comunicação, este tema levanta muitas questões, ainda assim pouco investigadas. É possível encontrar algumas noções no estudo A Expressão das Emoções nos Animais e no Homem, levado a cabo em 1872 por Darwin. Mais matéria adulando o assunto pode ser encontrada na investigação Crying - The Natural and Cultural History of Tears, do professor norte-americano Tom Lutz. Segundo Lutz, Murube, Gonin ou Wilson, todos os seres humanos e só os humanos choram. Além disso, para os cientistas mais sazonados não restam dúvidas, as mulheres são quatro vezes mais choronas do que os homens. Os rapazes choram apenas um pouco menos do que as raparigas, embora o seu choro seja ligeiramente superior em lágrimas de dádiva de ajuda e um pouco inferior nas de pedido de ajuda. Os estudos são claros, a capacidade masculina de expressar dor com o choro não é muito menor do que a feminina.

As lágrimas, a reforma do ser humano


Para além da sua própria fisiologia, o olho possui uma série de estruturas acessórias que lhe servem para se lubrificar, se apoiar, mover-se e proteger-se. Uma delas é o sistema lacrimal, que é secretor e excretor. Graças ao primeiro efeito, produzem-se lágrimas; devido ao segundo, estas correm para o exterior. A estrutura principal deste sistema é a glândula lacrimal, localizada entre o osso e o globo ocular. Há também muitas outras pequenas glândulas lacrimais basais. A conjuntiva é uma membrana mucosa transparente que cobre e humedece a esclerótica e o interior das pálpebras. As lágrimas sobrantes evaporam-se ou drenam-se para um saco ligado à cavidade nasal, o saco nasolacrimal.

As lágrimas, compostas por um fluido salino bactericida, provém da glândula lacrimal da pálpebra superior. O fluido corre através de uma canal lacrimal que se abre no canto interior de cada pálpebra, descendo para a cavidade nasal. Ao nascer, o ser humano têm um choro dito seco. Só aos três ou quatro meses de idade se desenvolvem completamente as suas glândulas lacrimais e podem começar a verter lágrimas. As lágrimas basais mantêm os olhos lubrificados.

A córnea, que é a parte anterior do globo ocular, cuja propriedade fundamental é a transparência, não é uma superfície regular. Muito pelo contrário, está cheia de pequenos orifícios, grãos e ondulações que precisam de humidade e limpeza contínua. Com efeito, a glândula lacrimal produz diariamente cerca de um centilitro de lágrimas (involuntárias). As lágrimas reflexas, isto é, as que se produzem quando os olhos sofrem uma agressão, são comuns a seres humanos e animais irracionais.

Apesar de haver consciência deste facto, nunca antes a sociedade e o mundo laboral deram tanto valor ao significado das lágrimas. Sabe-se desde há muito que as lágrimas são um reflexo pouco digno ou valorizado. Se dantes expressar afeto não era de homem, no mundo atual espelhar sentimentos não é de humano. Numa evolução traçada pelo phubbing, mais do que nunca a sensibilidade parece conduzir ao fracasso. Em O Poder das Lágrimas nada foi deixado para trás. Afinal, não foram necessárias grandes teses para descobrir que o reflexo dos sentimentos básicos aninhados na nossa verdadeira - e saudável - natureza interior, quer dizer, a alegria, a raiva, o medo, a ira, o asco e a tristeza, é igual em todas as culturas. A sua leitura, básica, atravessa todas as fronteiras impostas pelo turbilhão artificial do mundo moderno. A água salgada que serve para limpar os olhos tem, precisamente, esta outra profunda utilidade: exprimir emoções.