quinta-feira, dezembro 01, 2016

OS CÓDIGOS DOS CUMPRIMENTOS

São poucos os gestos realmente universais. Desde há algum tempo que certos psicólogos retomaram a análise dos traços individuais. Seguindo a teoria de Ronald Henss, professor da Universidade de Sarrebruck, na Alemanha, a fisionomia e os gestos das pessoas não nos permite emitir um diagnóstico psicológico, mas oferecem informações consideráveis sobre a sua essência. São factos. As investigações desenvolvidas, no âmbito da cinésica inclusive, revelaram que, nos primeiros quatro minutos em que se aborda uma pessoa pode saber-se, de antemão, se se trata de um futuro amigo, amante, conhecido ou simples transeunte (nas nossas vidas), etc. Com efeito, se, para os especialistas nesta matéria, não existem muitas dúvidas de quão decisivo é o cumprimento no primeiro encontro, entre duas ou mais pessoas, é porque uma má saudação pode frustrar a vida social, e traduzir uma catástrofe no mundo dos negócios. Existem alguns casos em Portugal. Este é um exercício muito aprofundado, sobretudo no tecido mediático mais elevado.

De facto, como indicam os antropólogos especializados no estudo de comportamentos e rituais, o cumprimento é tão importante que nos fornece os limites de um grupo; é sabido que, nas camadas mais formais, protocolizadas e não só, uma das piores ofensas que se pode fazer consiste em negar cumprimentar alguém. Quer isto dizer, que a função ritual do cumprimento para manter a textura social tem mais importância do que a apresentação no primeiro encontro. No seu ensaio A Ritualização Filogenética e Cultural (1966), Konrad Lorenz (1903-1989), etólogo e professor austríaco distinguido com o Nobel de Fisiologia ou Medicina, em 1973, devido ao seu contributo científico relacionado com o comportamento social e individual, explica o valor - simbólico - do cumprimento como meio de comunicação, recorrendo a um exemplo fácil de compreender: «Quando uma pessoa entra numa casa em que há vários conhecidos sem olhar para ninguém e sem saudar com o olhar, com a palavra ou o gesto, tal omissão é sinal inequívoco de agressão e denota que o indivíduo está de más intenções». Anos mais tarde, este professor da Universidade de Königsberg, autor das conceituadas obras On Aggression e The Natural Science of the Human Species, voltaria a abordar esta temática em diversas publicações como a Investigação Comparada do Comportamento (1978), por exemplo.

Embora a tradição sustenha que o primeiro cumprimento seja o habitual aperto de mão, entre dois australopitecos, para mostrar que não tinham armas, há porém quem não seja dessa opinião. Infelizmente, os comportamentos não fossilizam, pelo que a sua origem é incerta. É provável que proto-símios anteriores aos australopitecos fizessem gestos relacionados com uma atitude pacífica para iniciar a interação social. Os etólogos registaram gestos como estender a palma da mão, que podemos contrapor com outros como cerrar os punhos e mostrar os dentes, etc. Sabe-se que existe uma base genética que predispõe a certos acenos de saudação, mas cada sociedade figura-os com significados distintos e, por conseguinte, leituras diferentes.

As saudações comforme as culturas


Apertar a mão, fazer vénias, abraçar, beijar... Cada cultura tem a sua maneira particular de dizer 'olá' e 'adeus'. Mas em todas cumpre funções muito parecidas. Com efeito, cada cultura elaborou fórmulas próprias para cumprimentar, algumas bastante insólitas. No Japão, por exemplo, a educação exige que, quando os homens se encontram na rua, antes de se cumprimentarem, mostrem a roupa e o chapéu. É para nós, de facto, um costume muito curioso. Em todo o caso, repita-se, há justificações e eu passo a explicar algumas: este era o modo de garantir ao outro que não transportavam armas escondidas. Os habitantes da Nova Guiné, em contrapartida, recebem os estrangeiros com a cabeça coberta de hera, que não é mais do que um sinal local de amizade. Seja como for, hoje a saudação mais habitual em todo o mundo consiste em dar a mão direita, formalizando o emblemático 'aparto de mão'. Mas nem todas as saudações consideradas insólitas são verdadeiras. Por exemplo, a famosa saudação dos inuítes (ou esquimós), que esfregam os narizes, é na realidade um complemento às mãos que se apertam.

Hoje, dar a mão a alguém não serve para demonstrar que se está desarmado, até porque a agressão e o armamento hoje em dia assumem todas a formas e feitios, mas sim para romper com situações embaraçosas, como não saber a maneira de entabular a relação, ou para afirmar a própria identidade (e a do interlocutor). Para além disso, mais apresentações têm implícitas expressões que assinalam diferenças de hierarquia, idade, sexo, parentesco ou pertença ao grupo. Neste sentido, um beijo ou um abraço implicam mais proximidade do que um simples aperto de mão. Curiosamente, devo dizer, muitas sociedades pouco evoluídas em outros aspetos, como as de alguns reinos africanos, são sem dúvida mais escrupulosas no cumprimento dos rituais de diferenciação.

Entre os japoneses, o ângulo de inclinação da reverência assinala o respeito que transmite a saudação. Por certo, da China ao Japão, da Coreia aos países ocidentais, salvo casos muito pontuais (que eu não vou frisar nesta publicação para não criar confusão), o cumprimento mais obsequioso consiste em inclinar-se. No fundo, numa linguagem mais ou menos universal, curvar-se é como tentar reduzir a própria estatura para fazer o outro sentir-se maior, pelo que, mais satisfeito, mais confiante.

Mais exemplos: o fascínio que o Império romano provocava em fascistas e nazis levou-os a ressuscitar a saudação antiga, que curiosamente mostrava a ausência de armas, e que consiste em esticar o braço com a palma da mão aberta. Por outro lado, a saudação com três dedos, como faziam os membros da famosa Schutzstaffel (SS), organização paramilitar ligada ao 'führer' Adolf Hitler, é hoje empregue por grupos e organizações neonazis para marcar a sua diferença, e isto, tanto por parte dos militantes de esquerda como de extrema-direita. As fórmulas são de facto muitas.

A sequência estrutural do cumprimento


Claro que, se queremos analisar o significado da saudação, temos de fixar-nos um pouco antes. As investigações de um grupo de psicólogos norte-americanos, especialistas em comunicação não verbal, realçaram que o cumprimento começa antes de darmos o tal aperto de mãos, abraço ou beijo.

Ao que parece, todos respeitamos instintivamente a 'sequência estrutural' do cumprimento, que se desdobra em pelo menos quatro fases. A primeira consiste num sorriso ou gesto de reconhecimento (levantar um braço ou agitar a mão), quando o conhecido entra no nosso campo de visual. Depois, há que preparar-se para o encontro propriamente dito: compomos a postura, ajeitamos instintivamente o cabelo e aproximamo-nos. Em seguida, surge a dita saudação, com frases rituais que servem na realidade para afirmar a própria identidade e reconhecer a do outro. Por último, esta sim é a fase da 'ligação', um intercâmbio de frases convencionais do tipo «como estás?», que, apesar de se tratar de uma pergunta ou dúvida, servem apenas para introduzir ação verbal e estabelecer diálogo.

O aperto de mãos


Cuidado com esta ação, se está a pensar concorrer a certos lugares relacionados com emprego. Cada vez menos confiantes nos currículos, algumas empresas, mais exigentes, desenvolvem métodos de seleção mais fiáveis na hora de contratar, e, nestes casos, a primeira entrevista aparece lavrada com recurso a este item (ver publicação de 2013 «Dicas sobre entrevistas (os erros)». Basta dizer que mais de metade dos candidatos não chega sequer ao segundo 'round' devido a esta (primeira) ratoeira. Pois trata-se de uma fonte riquíssima de dados. Examinar um simples aperto de mão permite sacar um fardo bastante completo de informações acerca da personalidade das pessoas; neste primeiro contacto, nem os seus sentimentos, nem a posição que pretendem assumir na relação escapam a um scaneamento hábil. Dar a mão é a forma mais ritualizada de tocar no outro. Pode parecer exagero aos olhos do comum dos mortais, mas através deste gesto - singelo - são filtradas informações importantes. Este aperto de mão cria uma, senão a derradeira, abertura entre duas pessoas que autoriza uma interação posterior. Uma das caraterísticas deste ritual, que normalmente passa despercebida, é que se trata de um comportamento tipicamente masculino. Embora a mulher tenha começado a utilizá-lo, em parte devido à sua entrada no mundo dos negócios, o aperto de mãos feminino costuma restringir-se a uma saudação de apresentação.

Resumindo, é possível desvendar algumas leituras imediatas através de um aperto de mãos praticado com os nós dos dedos para cima (indicador de personalidade instável, indiferença e falta de saúde) ou com a mão márcida, com reticência ou na vertical (denotando fórmulas típicas de gente pouco educada, pretensiosa, egoísta, pouco digna de confiança e até antissocial), entre outros, fique a saber que o olhar, a inclinação do rosto, do braço e do antebraço, a posição do corpo e até a proximidade - a chamada 'distância social' (termo usado pelos peritos) - entre ambos, carregam um conjunto de valores preciosos para se poder esquadrinhar corretamente um cumprimento.

Os beijos e abraços nos cumprimentos


A partir do Renascimento, produziu-se na Europa uma espécie de homogeneização no cumprimento, que se vai impondo à base de modas. Porém, muitas diferenças continuam a manter-se. No mundo atual, é cada vez mais habitual pôr-se em contacto com pessoas de culturas diferentes e, sem nos darmos por isso, podemos causar uma má impressão. Elas, por sua vez, também podem parecer-nos frias ou demasiado efusivas. E não é só uma questão da forma de dar a mão ou inclinar-se. Em certos lugares, o cumprimento dá-se a maior ou menor distância, e o facto de mantermos aquela a que estamos acostumados pode provocar rejeição. Noutros países, como a Índia ou a Etiópia por exemplo, não é bem visto beijar-se quando se cumprimenta (ou se despede).

Acontece que o toque dos lábios, isto é, o'beijo', fez desde sempre parte dos métodos de saudação mais utilizados. Se recuarmos no tempo, na época de Marco Pórcio Catão, os romanos beijavam as mulheres da família nos lábios para se certificarem de que o seu hálito não cheirava a vinho, pois não era bem visto que o bebessem. Contudo, um certo dia, no século XVI, quando em França se mudou o costume de beijar as damas na face pelo chamado 'baisemain' (beijo na mão), o célebre filósofo humanista francês Michel de Montaigne (1533-1592) terá exclamado: «Por cada três mulheres belas havia que beijar cinquenta feias, e um mau beijo ultrapassa com juros um bom». Hoje em dia, o beijo está muito expandido na Europa, e na América Latina é frequente usá-lo com os mais chegados, como a família e os amigos íntimos, por se tratar de um gesto afável, terno e humano. No entanto, também aqui não podemos menosprezar outros códigos ritualizados, como, entre outros, os três beijos russos, que neste caso representam essencialmente «respeito».

Neste estudo, nada é deixado para trás. Todavia, nesta publicação relacionada com o cumprimento não verbal, não me posso obviamente debruçar sobre todos os códigos, mas também aqui vale a pena realçar os menos complexos, até porque alguns deles, mais frequentes, talvez sejam mais úteis para a maioria dos leitores. Por exemplo, os beijos que se dão de raspão na face, ou no ar, como para não estragar a maquilhagem, não deixam grandes dúvidas para quem detém algum conhecimento nesta temática; este aceno, aparentemente reverente, carrega na realidade falta de sinceridade, repulsa e um conjunto de sinais - mais ou menos percetíveis - denunciados pela hipocrisia.

Se aos olhos de Marco Túlio Cícero, célebre filósofo, orador e escritor da Roma Antiga, o rosto é o espelho da alma, atualmente, conforme salientado no artigo de julho de 2012 «Ser ou Parecer, Eis a Questão!», aos olhos da ciência da fisionomia somos melindrosamente perspícuos. Em «Os Códigos dos Cumprimentos» apenas foram abordados alguns traços que compõem um pequeno gesto impulsivo e espontâneo que é a saudação. Basta dizer que ao longo de uma vida inteira, uma pessoa pronuncia cerca de 345 mil vezes bom dia (ou konichiwa, bonjour, etc.), num hábito que vai totalizando mais de 190 horas. A interpretação das atitudes corporais leva aos peritos anos de estudo e de prática. Qualquer olhar, postura, tom de voz ou gesto diz mais sobre o que somos e pensamos do que um elaborado discurso ou currículo. Métodos analíticos deste género, julgados inadmissíveis por grande parte da sociedade devido ao rastreio considerado invasivo, vão determinando algumas prioridades junto de entidades. Nenhum disfarce resiste ao escrutínio cirúrgico e penetrante de alguns especialistas implacáveis da ciência do não verbal.